Não lhes deixa um momento de descanso para se ocuparem 
de outra coisa além de suas propriedades privadas; (…) 
cada um está disposto a aprender qualquer técnica, a praticar 
qualquer atividade que lhe dê lucro e não lhe importa o resto.

Platão referindo-se a alguns ricos que trabalhavam por cobiça e seu amor às riquezas

 

Todo mundo sabe o que é excesso de trabalho. Mas quando se fala em ócio, a ignorância (ignorar ou desconhecer alguma coisa, não ter conhecimento dela) é grande. Antes de mais nada, o que significa ócio? O dicionário do Aurélio diz que é descanso do trabalho, folga, repouso, tempo que se passa desocupado, vagar, quietação, lazer. Cita falta de trabalho; desocupação, inação, preguiça, indolência, moleza. E aponta também o trabalho mental ou ocupação suave, agradável.

No livro O Futuro do Trabalho – Fadiga e ócio na sociedade pós-industrial, Domenico De Masi lembra que antes da indústria, os operários e os escravos se limitavam a trabalhar não mais de quatro ou cinco horas por dia. Os camponeses ficavam inativos muitos meses por ano. Um número enorme de festas, pagãs de início e depois cristãs, preenchiam o resto do tempo.

A revolução industrial forçou a migração para as cidades em busca de emprego, pois as indústrias eram rudimentares e absorviam muita mão-de-obra. E para produzir mais, os operários enfrentavam jornadas estressantes de 12 a 15 horas diárias.

Com o advento de técnicas científicas de gestão e de produtividade na primeira metade do século XX a produção aumentou, a oferta foi diversificada e melhorou a qualidade dos produtos. E na segunda metade daquele século a eletrônica e a informática se incumbiram de fazer tudo isso de forma mais limpa, mais rápida, mais barata e miniaturizada e, principalmente, com muito menos gente trabalhando. Ou seja, com desemprego.

E De Masi acrescenta que a fantasia dos governantes e dos experts está se entregando às tentativas mais fantásticas de reverter esse desemprego crescente, sem grandes resultados no entanto. Quando tiverem experimentado todas elas, quando o furor dos desempregados obrigá-los a se tornarem inteligentes, finalmente tomarão o único caminho eficaz, baseado no replanejamento de existência e no abandono do trabalho como única razão da vida e única fonte de poder aquisitivo.

Mas a virtude do trabalho em excesso é louvada em muitas empresas. Elas incentivam seus empregados a trabalharem até 14 horas por dia, como se estivessem em pleno século XIX, no início da era industrial. A Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad - 1999) do IBGE mostra que dos quase 70 milhões de brasileiros ocupados, 27 milhões trabalham além da jornada normal, e pesquisa recente do Seade-Dieese mostra que 40,3% dos trabalhadores fizeram horas extras em março de 2001. E artigo de capa da Exame (13/12/2000), intitulado Hipercompetição no Trabalho: Funciona?, mostra o significado do trabalho como único objetivo na vida de muitas pessoas, como escreveu Platão. A reportagem trata de uma grande empresa brasileira e seus executivos, que dão adeus à família, lazer e vida pessoal e são capazes de quase tudo em troca de bônus milionários, segundo a revista.

Nem assim essas são pessoas realizadas e alegres. Numa pesquisa sobre nível de satisfação e sintomas de problemas físicos e psicológicos realizada em 24 países, com 700 gestores, os brasileiros aparecem entre as piores posições. Eles sofrem muita pressão e sentem pouca satisfação com o trabalho, diz Cary Cooper, professor do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade de Manchester, Inglaterra. Queixando-se de depressão, ansiedade, nervosismo e falta de alegria os profissionais brasileiros apareceram em 17º lugar no ranking de saúde mental. No ranking de saúde física, em que as perguntas eram sobre sentir insônia, dores de estômago ou outros sintomas de esgotamento, o país ficou em 18º lugar.

Autores e consultores de gestão escrevem e falam sobre o assunto porque o tema está na moda, mas nem todos estudam o assunto em profundidade, e não acreditam em diminuição da carga de trabalho no futuro, um futuro em que haverá menos empregos como os entendemos hoje. Falam de tempo e ócio a partir de suas experiências pessoais em gabinetes, mas demonstram pouco contato com o chão de fábrica ou os escritórios onde de fato os empregados trabalham, e onde a empresa produz e acontece.

Horas extras de alguns significam o desemprego de muitos. O economista Márcio Pochmann da Unicamp estima que 4,9 milhões de postos de trabalho poderiam ser criados se a jornada de 44 horas semanais fosse cumprida, e que muitos trabalhadores usam as duas horas extras permitidas por dia útil e as oito de sábado e de domingo como forma de complementar renda. Numa fascinante entrevista no portal Terra à jornalista Lilian Wite Fibe, a profª. Liliana Segnini da Unicamp, especialista em Sociologia do Trabalho, disse que um dos principais motivos que leva as pessoas a trabalharem cada vez mais, comprometendo sua qualidade de vida, é a pedagogia do medo. Liliana falou do uso dessa pedagogia hoje nas relações de trabalho, que faz com que as pessoas busquem o máximo de produtividade em uma lógica de competição que destrói vínculos de solidariedade com o colega. Então, o salve-se quem puder significa: eu vou competir com você minha colega de trabalho, nós duas vamos competir com o departamento do lado, o departamento do lado vai competir com outro. A intensificação, e o que é pior, a legitimação de que a qualificação mais valorizada hoje é a capacidade de dar respostas rápidas num contexto de intensa competição, que reflete na qualidade de vida.

E muitas vezes esse medo é estimulado por especialistas, como fez o conhecido Stephen Kanitz em seu infeliz artigo Férias? Nem pensar, publicado há alguns anos na revista Veja, que termina com a seguinte frase: Na próxima vez em que você tirar férias, lembre-se de que seu assistente está se esforçando ao máximo para ficar com seu emprego, para sempre. Férias, eu? Nem pensar. 

Cuidado! Entre as necessidades dos homens, a socióloga húngara Agnes Heller costuma falar das necessidades induzidas ou alienadas, como posse, dinheiro e acúmulo quantitativo e interminável, que não derivam da natureza íntima do homem, mas da sociedade competitiva. Cita também as necessidades existenciais, como alimento, repouso e reprodução, e as necessidades radicais, como amor, amizade, diversão, introspecção e convívio. E diz que as pessoas tem que escolher ou dividir-se entre estas necessidades, mas deixa claro que há personalidades que terminam por alienar-se, privilegiando a satisfação de suas necessidades induzidas.

Um exemplo dessas necessidades é a história de Robert Reich, ministro do Trabalho de Clinton de 93 a 97, famoso pela sua obsessão com o trabalho. Trabalhava quinze horas por dia, e não era raro trabalhar vinte. Até que um dia telefonou para um dos filhos para dizer que não poderia chegar em casa mais cedo conforme prometera. O filho concordou como sempre, mas pediu ao pai que o acordasse ao chegar em casa. “Eu vou chegar muito tarde. É alguma coisa importante?”, perguntou. “Não. Eu queria apenas sua companhia. Saber que você está aqui em casa.” Reich percebeu então que, em troca de poder e dinheiro, estava perdendo sua família e outros prazeres essenciais da vida. Pediu demissão. E seu livro The Future of Success, escrito nas horas de ócio que agora tem, é um depoimento importante sobre sua mudança pessoal.

Aliás, é curioso como se fala que o norte-americano de hoje está trabalhando mais. O fato é que a imensa maioria está trabalhando o mesmo que trabalhava há quarenta anos atrás, e para confirmar isso é bom consultar o livro Time for Life: The Surprising Ways Americans Use Their Time, em que John Robinson e Geofffrey Godbey estudam com seriedade os dados estatísticos do Bureau de Censo dos Estados Unidos e mostram suas conclusões. O renomado Robert Putnam, na introdução do livro, recomenda uma leitura do mesmo com cuidado científico.

Há uma outra corrente de pensamento, liderada por Juliet B. Schor, que em The Overworked American fala do americano moderno e sua sobrecarga de trabalho, citando outras fontes e estudos. Como ela, alguns autores apontam grande incerteza e mudanças profundas acontecendo nos próximos anos, e dizem que o ócio é simplesmente incompatível com este estado de coisas. Faz parte de suas crenças que é necessário trabalhar mais para enfrentar tais mudanças. Pessoalmente acho que ela não considera a imensa força de trabalho norte-americana, e toma como padrão o pessoal de Wall Street ou do Vale do Silício, esses sim verdadeiros ergomaníacos (workaholics).

Mas é o ócio significando trabalho mental, segundo o Aurélio, que será cada vez mais necessário para lidarmos com essas mudanças, e não o simples adicionar mais horas e ficar mais tempo no escritório, na fábrica, na loja ou onde quer que se trabalhe.

Tendências que moldarão o futuro apontam quase todas para menos horas de trabalho, e Faith Popcorn, chamada por muitos de a Nostradamus do marketing, fala em seu livro The Popcorn Report que entre estas tendências estão o Cocooning (encasulamento, ficar mais tempo em casa), o Cashing Out (sair fora, questionar a super-exigência na carreira), o Down Aging (nostalgia da liberdade da infância) e o Being Alive (sobreviver, mudar de ritmo, reforçar qualidade de vida). E convém lembrar dos franceses, cuja carga horária determinada pelo governo agora é de 35 horas semanais e não mais 39 como anteriormente.

Mas por que pessoas ficam no trabalho depois do horário? Por que tantas horas além do expediente? No artigo O Campeão de Horas Extras, publicado na revista Você S.A., analiso os reais motivos que as levam a tal. Eis alguns deles:

• Ausência de outros interesses na vida:

A falta de interesse por outra coisa que não seja o trabalho pode significar que estamos diante de um viciado. Em Diseasing of America: Addiction Treatment Out of Control o Dr. Stanton Peele mostra que desde a adolescência jovens propensos a se tornarem viciados têm em comum a crença de que não há nada de interessante para fazer com o seu tempo. Uns optam por preecher o tempo com drogas, outros com o crime e muitos com o trabalho.

• Valorizar o fato de estar trabalhando (mostrar-se ativo) em vez de resultados obtidos:

Vale sempre lembrar aqui o que Nietzsche disse em Humano, demasiado humano (1886): se o ócio é realmente o começo de todos os vícios, então ao menos está bem próximo de todas as virtudes; o ocioso é sempre um homem melhor do que o ativo.

• Falta de respeito pelo outro;

• Desestruturação ou desorganização dos processos e métodos pessoais de trabalho;

• Medo de admitir que sua carga horária vai diminuir;

• Aplicar o velho truque de esticar o trabalho:

No clássico A Lei de Parkinson (1957), traduzido para o português pelo grande humorista Silveira Sampaio, C. Northcote Parkinson afirma na primeira frase do capítulo I que o trabalho aumenta a fim de preencher o tempo disponível para sua conclusão… Pouco mudou desde então para muitas pessoas.

O que está faltando é o que a profª. Liliana Segnini chamou de autorização social, ou seja, a quebra, em plena era pós-industrial, do mito do trabalho realizado sob premissas e condicionamentos da era industrial que ainda vigoram e são aceitos como modelo.

O mundo está mudando sim, mas cada vez mais produtos serão produzidos com menor necessidade de mão-de-obra direta e maior utilização de máquinas e computadores. Isto não é novidade, e já ocorreu em outros momentos da história. A invenção da prensa por Gutemberg desempregou os copistas que durante séculos reproduziram à mão textos e iluminuras. O uso do tear mecânico multiplicou a oferta de tecidos a preços acessíveis na Inglaterra, e gerou desemprego para milhares de pessoas que produziam com teares manuais. A Volkswagen produz no Paraná carros de muito melhor qualidade e de tecnologia avançada empregando muito menos gente do que seus carros fabricados por processos convencionais em São Bernardo do Campo ou em Taubaté. Os Estados Unidos têm grandes excedentes agrícolas utilizando hoje menos de 3% da força de trabalho norte-americana, e esta proporção só tende a diminuir com o emprego de mais tecnologia.

Se existe gente trabalhando demais, e isso existe mesmo, é preciso verificar quem são e porque ainda o fazem. Algumas características parecem ser comuns a essas pessoas:

• são em sua maioria moradores de grandes cidades

• trabalham em empresas onde a competição interna é grande e, para crescer, ou mesmo sobreviver, é preciso não só trabalhar muito como mostrar a todos que faz isso

• acreditam que quanto mais trabalharem mais resultados produzirão

• muitos dependem de seus empregos mais do que de seus talentos

• outros são perfeccionistas ou inseguros, e demoram muito para dar por terminado qualquer trabalho que fazem, mesmo os mais simples

• acreditam que fazem hora extras para proporcionar mais segurança e conforto para a família, família essa que se queixa de não poder vê-las, pois estão trabalhando muito além do que deveriam e quase não ficam em casa

• não sabem dizer não para seus chefes, para seus pares, para seus subordinados (colaboradores, vá lá…) e até para si mesmos.

Bryan Robinson trata com seriedade o tema do ergomaníaco (workaholic) em seu livro Chained to the Desk, um guia para o viciado em trabalho, seus amigos, familiares e sócios. Consulte-o e acredite nessa doença. A revista Veja apresentou na coluna Saúde um texto onde a síndrome do lazer é apresentada como a doença da obsessão pelo trabalho, que acomete as pessoas quando estão longe de seus afazeres profissionais. A síndrome ocorre durante as folgas, e assim seus portadores não tiram férias, ou o fazem por poucos dias, e nos fins de semana sentem-se nervosos e seu sistema imunológico enfraquece, tornando-as propensas a contrair doenças e viroses.  

Mas voltemos a raciocinar com De Masi: um homem de 20 anos de idade tem hoje diante de si pelo menos 60 anos de vida, ou 525 mil horas. Se até os 60 anos trabalhar 8 horas por dia durante 365 dias, menos férias, sábados e domingos, terá trabalhado 2 mil horas por ano, ou 80 mil horas nos quarenta anos de trabalho restantes. Assim, trabalhará apenas 15% do seu tempo.

Se lembrarmos que há pouco mais de um século, em plena era industrial, a expectativa média de vida do homem beirava os 40 anos e o trabalho infantil era prática comum, trabalhando desde os 8 anos cerca de 12 horas por dia inclusive fins de semana, o homem trabalhava 140 mil horas, isto é, aproximadamente 50% de sua vida. Será mesmo que estamos e vamos continuar a trabalhar mais?

Em In Praise of Idleness (1935), publicado recentemente no Brasil pela Editora Sextante (O Elogio ao Ócio), o filósofo Bertrand Russell diz que o caminho para a felicidade e a prosperidade se baseia na diminuição organizada do trabalho. E também que os modernos métodos de produção nos deram a possibilidade de ter facilidades e segurança para todos, mas que em vez disso, escolhemos o excesso de trabalho para alguns e a miséria para outros. Até aqui continuamos a ser tão vigororsos quanto éramos antes do advento das máquinas; nisto temos sido tolos, mas não há razão para que continuemos tolos assim indefinidamente.

Por fim, é sempre bom lembrar o economista John Maynard Keynes quando perguntava se cada um de nós já estava pronto para se encontrar com seu verdadeiro e constante problema, que é como empregar o tempo livre que a ciência e o conjunto de interesses terão ganho para que você viva bem, agradavelmente e com sabedoria. Keynes escreveu isso em 1930 para seus netos, como uma visão e antecipação do futuro.

E esse tempo vislumbrado por ele não está mais por vir, ele já está começando.


* Fernando Henrique é especialista em desenvolvimento gerencial, tendo apresentado mais de 300 cursos e palestras para mais de 15.000 participantes no Brasil e em Portugal. Abordou nessa atividades temas como Gerenciamento de Projetos, Organização do Trabalho e Gestão do Tempo,  Como Liderar Equipes e Reuniões Eficazes em empresas como ABB, Bosch, Banco do Brasil, Banco Central, Itaú, CEF e Bradesco, Camargo Correa, Embratel, Embraer, Furnas, Glaxo SmithKline, Gol, Nestlé, Petrobras, Pfizer, Promon, Queiroz Galvão, SENAC/SESC, TIM, Varig, VW e universidades como UNICAMP, UFRJ, UFES, UFJF e FATEC/SENAC.

Mestre em Engenharia Industrial - Métodos e Produção e Engenheiro Eletricista e de Telecomunicações pela PUC-Rio, é autor com Paul Dinsmore dos livros Gerenciamento de Projetos: como gerenciar seu projeto com qualidade, dentro do prazo e custos previstos (Ed. Qualitymark, 5a. reimpr, 2010) e Gerenciamento de Projetos e o fator humano: conquistando resultados através das pessoas (Ed. Qualitymark, 2a. reimpr 2010), e escreveu os livros Ganhe Tempo Planejando (Editora Gente, 5a. edição), O Gerente de Informática: Além do CPD (Ed.COP) e Outra Reunião? (Ed.COP, 4a. edição).

É professor na PUC- Rio do Depto. de Engenharia Industrial (Gerência de Projetos) e dos MBAs da FGV e do IBMEC.

Professor do IDEMP – Instituto de Desenvolvimento Empresarial.